ImagemNa condição de turista, não sou grande fã de dar bandeira de tal – especialmente em cidades. Pedir uma dica a alguém na rua tendo pinta de turista é meio caminho andado para ir parar a um sítio de turistas. Ou meio caminho andado para não arrancar nenhuma dica com mais dignidade. Considerando que não dá para prescindir do guia na mão ou das máquinas fotográficas ao pescoço (e aniquilando qualquer conceito que meta chinelos e meias, juntos), resta cuidar do guarda-roupa. Apenas saber se é inverno ou verão, se vão estar dez graus negativos ou 30 raios abaixo do sol não chega. Acredito que cada cidade tem uma personalidade, tem uma maneira de andar, de calçar, de vestir e de passar do dia para a noite, ou vice-versa. Uma mala para São Paulo não é igual a uma mala para Lisboa. Em Lisboa não dá para usar saltos – eu, pelo menos, raramente consigo. Lisboa tem qualquer coisa de hippie, e São Paulo tem qualquer coisa de metida à besta. Se a ideia é aproveitar ao máximo a visita e sentir-se bem, acho que na hora de viajar o guarda-roupa certo é fundamental. Ideia: um guia digital (App ou não) que ajudasse a fazer as malas consoante o destino e a época do ano. Sem fotografias manhosas, mas com “sketches” de estilos e peças básicas que reflectissem o carácter e a forma de estar da cidade, e o que é ou não funcional. Se fosse possível então determinar o número de dias e ter, com isso, alguma ajuda “racional” na quantidade de tralhas a empacotar, melhor ainda. Também poderia ter uma conexão com o instagram, buscando fotos seleccionadas de pessoas da tal cidade – tipo um facehunter. A base de dados poderia ser construída em crowdsourcing (com dicas de “locais”), mas com uma curadoria de moda competente a editar, aperfeiçoar e validar o conteúdo. Links de lojas “off the beaten track” no destino também seriam interessantes – e rentáveis, fosse através da venda da App como um todo (e uma selecção “editorial” das tais lojas), fosse através da venda de publicidade para as tais lojas.    

ImagemDe quando em quando, faço uma limpeza no meu armário. De quando em quando, abro aquela gaveta abarrotada de papéis e recibos e talões de compras de que já nem me lembro, e cartões de visita de lugares que já duvido alguma vez ter visitado. É sempre um alívio – mesmo considerando posteriores arrependimentos como ter despachado os jeans coloridos de 92. Porém, quando penso na minha bagunça digital (ou na bagunça que é a minha vida digital), bate um certo ‘desespero’. Como abrir essa gaveta e arrumá-la? Em quantos sites eu já me registei, de quantos já me esqueci, os e-mails e as passwords e os log in’s, tudo espalhado por aí… e as fotos, e os textos, e os comments, e os posts que já postei, e os tags que já taguei e os que os outros tagaram por mim,… e isso tudo considerando que só comecei a acumular tralha digital depois de ter me livrado dos jeans coloridos. Adoraria poder contratar um serviço de “limpeza digital”, uma espécie de detective para os assuntos “on-line” que fosse capaz de buscar, reunir e me apresentar um dossiê com o que é meu e com o que me diz respeito e anda por aí cyberespalhado. E, claro, sob minha autorização, fazer a faxina. Desconfio que eu não seria a única cliente deste Mr. Wolf do século vinte e um.

Acho que as facilidades digitais ainda estão em débito com os turistas. Compramos passagens, reservamos hotéis, lemos todas as reviews, e tudo isso torna possível a vida de quem não está para pacotes e roteiros pré-definidos. Mas quando se chega ao destino… Ou é o velho Lonely Planet debaixo do braço, ou é navegação a vista. A maioria das App’s de viagem é péssima. Ou pelo menos aquelas que eu já experimentei. As razoáveis (com algum tipo de “GPS”), requerem rede – um luxo para quem está em roaming ou algo que invariavelmente leva-nos a atitudes desesperadas como tolerar cafés manhosos só porque têm wi-fi grátis. As mais “hipster” pouco acrescentam para quem quer mais alguma coisa do que compras e bares. Sem a menor pretensão de perceber alguma coisa das “engenharias”, a ideia é: 1) a cidade “X” poderia “vender” passes de internet para os seus visitantes, tal como vende os pacotes de transporte público ou de museus. 2) Essa mesma cidade poderia ter, em todos os seus monumentos, praças, ruas, avenidas, parques ou qualquer infra-estrutura pública com uma história para contar (e porque não privadas, também), um código dedicado aos smartphones. Um clique e toda a informação sobre aquele monumento estaria disponível. E todas as amenities e outras coisas interessantes à volta, também. Mais liberdade, mais conhecimento e mais respeito, on demand, que é como a gente gosta hoje em dia. E tudo patrocinado por uma ou mais marcas, locais ou não, desde que com muita discrição.

“‘Porque sim’ não é resposta”, embirrava eu quando era criança. Mudei de ideias e hoje, “porque sim” parece-me uma explicação bastante reconfortante e libertadora no meio de tanta razão e complicação e teorização que merece qualquer pedra solta na calçada, nos dias que correm. ‘Porque sim’ é honesto, é o que é. Pode até não ter razão, mas também não tenta enganar ninguém elucubrando uma. Outra coisa boa sobre o ‘Porque sim’ é que ele é um primo vintage do ‘Porque não?’ – epítome da filosofia de café do século XXI – só que menos super-exposto. Então, só porque sim, ideias, das mais as menos peregrinas, para partilhar.